“Luís Bernardo tinha terminado os ovos e bebido o café. Estirou-se na cadeira e levantou-se a custo. Sentia uma indolência absoluta, um desejo de se deixar ir na corrente, de ser comandado, em vez de comandar.
– Diz-me, Sebastião, a que horas é que se janta aqui?
– Como o patrão quiser. Mas o habitual é jantar depois da chuva, pelas sete e meia.
– Depois da chuva? Mas a chuva tem hora marcada?
– Fora da estação seca, da gravana, é sempre a seguir ao pôr do Sol. E, por volta das sete e meia, já acabou.
– Muito bem: então, o jantar é às sete e meia. Aqui.
– Aqui não, patrão.
– Não é patrão, é doutor, E por que não aqui?
– Por causa dos mosquitos. Perdão, dotôr.
Vencendo a preguiça, Luís Bernardo mandou que o Vicente fosse avisar o senhor Agostinho de Jesus que daí a uma hora iria descer ao andar de baixo para conhecer a Secretaria do Governo, e passou a dedicar essa hora a desempacotar e arrumar as suas coisas, com a colaboração do Sebastião e da Doroteia.
Enquanto esta pendurava os fatos nos cabides e se baixava para alinhar os sapatos no armário do quarto, Luís Bernardo não se conseguia impedir de lançar, de quando em vez, uns olhares de conhecedor interessado.
…
Lembrou-se de uma das suas últimas conversas com o João, em Lisboa, quando se queixava da abstinência sexual a que se imaginava condenado pelo seu exílio voluntário em S. Tomé, ele, tão bem habituado ao reconforto das mulheres.
…
E agora, ali estava ele, ao fim de três horas, lançando já olhares gulosos sobre a sua criada de quarto, que a natureza favorecera com um corpo de deusa grega, pintada de negro. Saiu do quarto furioso consigo próprio, gritando para dentro de si mesmo: «Porra, Luís, tu és o governador disto, não és um visitante de passagem!»”
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Publicado por Leonel Vicente em janeiro 27, 2004 07:08 PM | TrackBack